Excerto da curta As pedras e o tempo, de Fernando Lopes, prod. SNI-Secretariado Nacional de Informação, 1961.
Incluído na edição em DVD do filme Uma abelha na chuva.
Excerto da curta As pedras e o tempo, de Fernando Lopes, prod. SNI-Secretariado Nacional de Informação, 1961.
Incluído na edição em DVD do filme Uma abelha na chuva.
Publicado em Filmografia
Excerto da reportagem da RTP sobre a estreia de ‘O Cerco’, de António da Cunha Telles, em Paris.
Excerto do filme ‘Notas urbanas’, incluído nos extras da edição em DVD de ‘O Cerco’.
Publicado em Documentos, Entrevista
Ana, de António Reis e Margarida Cordeiro, 1982.
Publicado em Filmografia
Trás-os-Montes, de António Reis e Margarida Cordeiro, prod. Centro Português de Cinema, 1976.
Publicado em Filmografia
Das aldeias de Bragança a um atelier no Porto
A Casa Grande de Trás-os-Montes está metade em ruínas, metade renovada. O anfitrião Manuel Ferreira foi guia e conselheiro do filme. O seu filho Luís, também arquitecto, era a criança protagonista, e hoje tem uma obra que vai das aldeias transmontanas a revistas internacionais. Regresso aos lugares de António Reis e Margarida Cordeiro. Segunda parte.
Por Alexandra Lucas Coelho (texto) e Nelson Garrido (fotos)
Estava dito.
Deixamos as terras de Miranda pela estrada às curvas, a portuguesa. Uma hora e picos até Bragança, a tempo de ir almoçar ao Largo do Sé. Bem se lembram os donos do Solar Bragançano da estreia de Trás-os-Montes em 1976. E a gente do filme veio cá comer, incluindo o convidado especial Miguel Torga.
Estreia tranquila, nada como veio a ser em Miranda.
É em Bragança e à volta que acontece a primeira parte de Trás-os-Montes. Para chegar à mais enigmática casa do filme há que subir ao castelo, passar as tílias do pelourinho, a torre, a igreja, e teremos à nossa frente a Domus Municipalis, espécie de pentágono em pedra, 38 janelas, banco corrido, cisterna por baixo.
Aqui se terão reunido os homens-bons medievais, e é aqui que António Reis e Margarida Cordeiro filmam a leitura de uma carta de Dom Dinis com roupas de 1974. Cá fora, a vista vai longe e uma árvore há-de lançar a sombra dos seus ramos sobre a fachada.
Por estas serras correm o Luís e o Armando no filme, vestidos de pajens. Rebolam na palha, comem maçãs, enfiam-se num castanheiro, estão dentro de uma história, talvez a da princesa Branca Flor, que uma mãe conta à lareira. É um Verão de infância, como antes foi Inverno, e eles foram ao rio, e o Luís encontrou uma truta dentro do gelo, parada para sempre.
Telefonámos-lhe – ao Luís. Espera-nos segunda-feira, no seu atelier do Porto.
Também telefonámos ao pai, dono da Casa Grande do filme. Vamos lá amanhã, domingo.
Só não veremos Armando, companheiro de aventuras de Luís. Está longe, no funeral da sogra, e só volta dentro de dias.
A casa de Palácios
Dez da manhã, céu incerto.
O arquitecto Manuel Ferreira sobe para a sua carrinha, apoiado apenas no volante. Tem uma prótese na anca que vai ser substituída, anda de bengala e custa-lhe.
- Fora isso, estou óptimo. Desculpe a carrinha estar suja, mas é de andar na castanha.
Aos 82 anos, vozeirão, cabeça límpida.
Arrancamos para Palácios, a 15 quilómetros. É o tempo da história se ir recompondo.
- O António Reis já me conhecia das Belas-Artes do Porto, no grupo do António Quadros, do José Rodrigues. Isto, em 1955, 56. Depois vim para Bragança dar aulas, casei, e qual não é o meu espanto quando me aparece o Reis: “Preciso da Casa de Palácios.” E eu disse: “Sim senhor, vamos lá fazer o filme.”
E além da casa, foi guia, conselheiro, pai da criança protagonista (o Luís), e fugazmente actor.
- Apareço num bailarico em Rabal a tocar guitarra portuguesa. O Manuel Brasileiro toca violino, o meu irmão viola e eu guitarra.
Passamos agora Gimonde, a ponte românica à esquerda que Luís e Armando atravessam. No filme só tem árvores de um lado e do outro. Agora, casas.
- Há ali uma capela feita pelo Liló que vem numa revista italiana e naquele livro da arquitectura contemporânea – aponta Manuel Ferreira.
Liló é como a família chama a Luís. Arquitecto como o pai, assina Luís Ferreira Rodrigues. A capela é um paralelepípedo branco no cimo de uma colina.
Depois, a vegetação adensa.
- Há dois anos fizemos aqui uma batida e saíram 28 javalis.
Carvalhos, choupos, freixos.
- Há aqui um rio, o Maçãs, que era quase só meu. Andámos durante anos, eu e o meu irmão, a tirar de lá trutas. Há dois anos secou por completo. O javali andou ali a fuçar, às minhocas.
Manuel Ferreira é homem de pesca, de caça, de ir à castanha, a tudo o que aqui se dá. Mas também foi presidente da Câmara de Bragança a seguir ao 25 de Abril.
Entramos na aldeia de Babe. Que é isto do lado esquerdo?
- São as placas do Tratado de Babe, também feitas pelo Liló.
Duas placas de pedra, xisto de um lado, mármore do outro, assentes em estacas na relva, com a explicação do tratado gravada. Belíssimo corte na paisagem, primeiro inesperado e depois justo, como se já fosse impossível a paisagem sem isto.
O Tratado de Babe foi celebrado a 26 de Março de 1387 entre D. João I de Portugal e João de Gaunt, duque de Lencastre, quarto filho do rei inglês Eduardo III.
O duque de Lencastre, explica a placa, reivindicava o trono de Castela em virtude do seu casamento com Constança, filha do Rei de Castela. Mas através deste tratado desistiu de qualquer direito à coroa portuguesa. E em Março aqui estavam exércitos e séquitos.
- Veio Nuno Álvares Pereira e acampou com cinco mil lanceiros e cavaleiros – conta Manuel Ferreira.
Já a seguir é o desvio para Palácios, a descer, até aparecerem casas dispersas. Enquanto o duque acampava em Babe, D. João I estava aqui.
- Isto está muito abandonado. Só 17 pessoas na aldeia toda. Velhinhos.
Estacionamos em frente a uma casa de dois pisos, meio em ruínas, meio em recuperação.
- Olhe, é esta.
A casa grande
Há lugares que já não sabemos se vêm do cinema ou de uma memória anterior.
Paredes brancas com retratos de avós e um espelho onde bate a luz. Janelas de guilhotina, lavatórios de esmalte, lençóis gelados no Inverno. A casa grande de Trás-os-Montes é assim.
Lá vive o Luís com a mãe. Não há pai. E a mãe foi um dia uma menina de laço vermelho a dizer adeus ao seu próprio pai, que partia a cavalo, cada vez mais longe, numa das mais belas sequências do cinema português.
É a história da mãe de Margarida Cordeiro, há-de contar-nos ela, quando a formos visitar.
E agora aqui estamos, a pisar as silvas, a afastar as roseiras, um pedaço de jardim selvagem até à entrada da casa. Manuel Ferreira está a recuperá-la como turismo rural com ateliers e galeria. O projecto é do filho. Já custou 400 mil euros e faltam uns 300 mil, calcula Manuel Ferreira. E é por isso que a casa está assim, meio abandonada, meio a renascer.
Entretanto, a vinha virgem cresce pela parede nova de xisto.
- Paredes novas, vigas novas, telhado novo – indica Manuel Ferreira, avançando com a sua bengala entre entulho e ervas.
- É a parte que já tenho feita. Isto tem quase 2000 metros quadrados de área coberta.
As esculturas em pedra de outro filho seu, o João, estão pousadas nas ervas.
Entramos.
- Aqui era a loja dos cavalos, a manjedoura. Vai ser um bar.
O pátio interior já teve uma galeria de madeira no primeiro piso, e agora tem um resto de varandim verde.
- As madeiras apodrecem com o tempo, estou a pôr novas. Ali vão ficar cinco quartos, outros cinco em baixo, todos com banho.
E todos com uma parede em vidro para a vista: colinas verdes, velhos pombais, freixos.
Manuel Ferreira pára numa sala com dez metros de altura.
- Aqui será a galeria. Vai ser um turismo voltado para a cultura. Estive em Murcia, em casa de uma velhinha que ensinava a pintar a aguarela, paguei muito pouco e aprendi a pintar.
Foi uma inspiração. Saímos para as traseiras.
- Era aqui que o meu avô encerrava os rebanhos à noite. Olhe, o tractor passa o Inverno debaixo do freixo.
Um Lamborghini coberto de folhas.
- O terreno deve ter uns oito ou dez hectares. Aquele pombal ainda é nosso. Vai ser o vestiário da piscina. E lá em cima acamparam os romanos. Encontrei três moedas.
O avô de Manuel Ferreira fez esta casa em 1879. A data está lá em cima. No filme, Luís e Armando debruçam-se para a ler.
- O meu avô era daqui, um homem de lavoura, mas pôs os sete filhos a estudar. As três filhas foram professoras. Davam aulas aqui à volta e vinham almoçar a casa.
Uma era a tia Ermelinda, autora de um livro de sonetos, Entardecer.
Entramos num quarto com barrotes à vista.
- Vai ser tudo em xisto, vidro e madeira de castanho. Olhe para esta viga de castanho. Sãzinha que nem um pêro e tem a idade da casa.
Dá a volta.
- Aqui era o tear, aqui a loja dos coelhos.
Pára, a ver madeiras velhas.
- Agora isto está uma desgraça. Pipas, portas, escanos, está tudo para aí.
Pausa.
- Se calhar não tenho dinheiro para acabar isto.
E afasta as plantas para passar.
- São figueiras-do-diabo, nascem espontâneas. É veneno.
No quarto de Luís
Os quartos onde o filme foi feito são no primeiro andar. Subimos.
- O António Reis não ficou cá, estava numa pensão em Bragança. A casa já estava desabitada há anos.
Manuel Ferreira empurra uma porta perra e abre-se a escuridão de uma sala repleta de móveis empilhados, aqui o lavatório do filme, ali uma escultura do tempo das Belas- Artes, e um fantástico tecto octogonal de madeira, já recuperado.
Como não há luz eléctrica e as janelas estão entaipadas, caminhamos a tactear, passando uma porta, até que Manuel explica como arrancar o contraplacado da janela.
E então, o quarto de Trás-os-Montes volta à vida. As paredes brancas, os retratos dos avós, as duas alcovas. E numa delas lá está a cama alta de madeira onde Luís se deita, puxando a grande camisa de dormir.
Manuel Ferreira identifica os retratos. O avô, de barbas brancas. A tia Ermelinda, de óculos. A mãe, caída.
- Não se importa de levantar a minha mãe? Muito obrigada.
Pousamos o retrato cheio de pó em cima de uma mesa. Uma mulher linda, parecida com o Luís do filme.
Entre as duas alcovas há uma grande fotografia de dois jovens sorridentes, vindos da caça.
- Ali estou eu com a minha mulher, ela com as perdizes todas.
À cintura.
- E aquilo são dois pilares da capela, tipo D. João V.
Da janela vem o som de pássaros, além os montes, os freixos dourados.
Voltamos à sala. Manuel Ferreira fala da mesa redonda ao centro, que nem se consegue ver.
- Eu vinha da eira de bicicleta, dava a volta à varanda, dava a volta a esta mesa e tornava a sair.
Lá fora cai uma chuva leve e oblíqua.
- Olhe um gavião real.
A planar.
A capela de Gimonde
Arrancamos para Gimonde, para ver a capela feita por Luís.
Lá adiante, Bragança cheia de sol. Encostas de folha vermelha.
- Cerdeiros bravos – diz Manuel Ferreira.
Despede-se ao chegar à aldeia porque já tem gente à espera no 4, o restaurante onde devemos ir, recomenda.
É domingo, hora da missa. A voz do padre vem da igreja, ao alto, por altifalante, e espalha-se por Gimonde. Depois ouvem-se os fiéis.
Aqui se juntam três rios, mas o que corre por baixo da ponte românica é o Sabor, e nas margens correm crianças, de braços levantados quando o vento vem e faz flutuar as folhas. Tentam agarrá-las, ajoelham-se, mergulham nelas de bruços.
Podia ser um momento de Trás-os-Montes – se houvesse só o rumor da natureza e das crianças, sem missa.
Muita gente não percebeu porque está a igreja ausente do filme. António Reis disse, numa entrevista aos Cahiers du Cinéma, que era “uma posição de princípio de tábua rasa”. E explicou: “O catolicismo é ali uma religião muito recente. Sente-se no filme que há religiões mais antigas e, entre as próprias pessoas, o cristianismo é uma coisa muito epidérmica. Não é exagero, nem sequer uma liberdade poética, dizer que eles são druidas.”
A ponte românica faz um arco, calçada de pedra. Está aquela luz que vem entre a chuva, e as pedras brilham, incandescentes. Não passa ninguém. Os cães dormem ao calor. Um homem sai de casa com uma latinha de tinta e começa a pintar a parede cá fora. As casas ao lado estão em ruínas, com tabuletas desajeitadas a dizer “Vende-se”.
- As pessoas vão morrendo e os herdeiros não se entendem – explica o homem, Manuel António de sua graça.
Sabe ele quando abre a capela nova, além da ponte, no cimo da colina?
- É só no mês de Setembro, que é a festa de Santa Columbina.
E sabe quem a fez?
- Foi um arquitecto aqui de Bragança, filho do arquitecto Manuel Ferreira.
O sino toca a uma da tarde. “Creio em Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra…”
Passamos a ponte, subimos à capela nova. Está fechada, mas tem umas frestas na porta que permitem espreitar. E o que se vê lá dentro é que por cima do altar fica o céu – uma janela a toda a largura do fundo.
Vamos em busca de quem possa abrir, mas dizem-nos que como é dia de finados a gente irá ver os seus mortos ao cemitério ao lado da capela nova, pelas três da tarde, e então a capela abrirá.
Até lá, almocemos. Posta e melão no tal 4, sim senhor, e sentados junto a uma cena transmontana pintada por Manuel Ferreira há décadas.
Quando saímos, chove bem, e num instante os caminhos estão enlameados, o que não impede a procissão de gente, de guarda-chuva, rumo ao cemitério. Mas a capela ficará fechada.
É com este tempo que os pajens Luís e Armando vão pelos montes até Montesinho. Assim fazemos, estrada florestal acima, entre fetos fabulosos, cor de laranja, até avistarmos os telhados de xisto de Montesinho.
- Agora somos 40 – dirá o senhor Isaías do café. – Antes, só crianças na escola eram 40 ou 50. Agora não há crianças. Nem uma. O mais novo tem à volta de 50 anos.
Para onde foram os novos?
- Para França, muitos.
O atelier no Porto
É uma surpresa, esta rua à beira de Campanhã, com a sua fiada de casas 1900, quase gémeas, variando cor e acabamentos. Uma delas é casa e atelier de Luís Ferreira Rodrigues, que foi pôr os dois filhos à escola e está agora a chegar, num boca-de-sapo branco com estofos negros, magnífico.
- Era do meu pai. Temos de lhe dar rodagem.
E faz-nos entrar, enquanto fala das casas, do bom pinho da Letónia, da madeira a respirar. Aos 44 anos, é a cara do Luís do filme, mas sem a cabeleira loura quase pelos ombros. Cabelo grisalho, cortado rente.
Não conhecia o seu companheiro de aventuras Armando, antes do filme.
Luís vinha dos senhores da terra. Armando vivia numa casa de acolhimento, o Patronato, onde Reis e Margarida o encontraram. Tinham em comum uma orfandade. Luís acabara de perder a mãe, Armando perdera o pai depois de nascer. O filme reuniu-os.
Depois, cada um voltou à sua casa. Meios e oportunidades continuaram diferentes, e continuam.
Aos 46 anos, Armando tem o mesmo emprego que arranjou aos 13 anos, numa ourivesaria em Bragança. E nas paredes do atelier de Luís, um pormenor de Miguel Ângelo convive com uma crítica em italiano à capela de Gimonde.
Mas ambos foram escolhidos da mesma forma para o filme, depois de muitas fotografias de pesquisa.
- O António fotografou vários locais para seleccionar miúdos, estava a mostrar ao meu pai e ele disse: “Alto, este eu conheço.”
Era Luís, apanhado no liceu, teria então uns nove anos.
- Depois, o António e a Margarida apareceram na nossa casa de Bragança.
Foi a primeira vez que Luís os viu.
- O António era de um carinho, de uma simpatia transbordantes. E a Margarida também. Eu tinha perdido a mãe há meses e tivemos uma relação muito especial. Eu estava sempre abraçado a ela, de mão dada, ela oferecia-me imensas coisas. O António era mais reflexivo, falava só quando tinha alguma coisa importante para dizer. A Margarida era mais espontânea, mais rápida. Mas as coisas que o António dizia ficavam sempre na nossa cabeça. Funcionavam muito bem os dois. Nas refeições, eu sentava-me à beira deles, começavam a falar de Proust e acabavam em Stockhausen. O António dizia: “Presta atenção, porque agora não vais perceber nada, mas um dia isto vai ser importante.” Às vezes eu apontava. Depois chegava a casa e perguntava: “Quem é este, e aquele?” Falavam, falavam, a Margarida escrevia e o António fumava imenso. Dava duas passas e apagava logo, mas fumava dois ou três maços.
Houve um momento especialmente difícil?
- Houve. – Luís sorri. – Quando fiquei nu.
É uma cena de pintura flamenga. Ele tira a camisa de noite em frente ao espelho e veste as roupas de pajem.
- O António preparou-me: “Hoje vai passar-se uma coisa que se calhar não vais gostar. Vais ter de mostrar o rabiosque.” E eu disse: “Mas é isso?”
Não lhe parecia grande coisa. Mas depois começou a ficar inquieto.
- Foram dois ou três takes, estava muito frio e lembro-me que batia o dente. E os lençóis eram de linho, feitos pela minha avó. Eram como duas lâminas de vidro.
A casa de Palácios já estava desabitada, mas ainda lá se passavam fins-de-semana e férias.
- Dormi muitas noites naquela casa, no quarto dos rapazes. Era sempre uma aventura, porque as vacas estavam mesmo por baixo. Ouvíamos-las a fazerem chichi e cocó, era um pavor. E conversávamos toda a noite.
Ele e os irmãos.
- Uma coisa muito interessante era o cuidado que o António tinha de explicar tudo, técnicas compositivas, quase uma componente pedagógica.
Mas o trabalho fazia-se verdadeiramente a meias?
- Sim, e muito discutido. O António tinha um trilho bem traçado e dirigiam os dois, embora na comunicação fosse quase sempre o António. Mas não tomava decisões sem falar com a Margarida.
Entretanto, Manuel Ferreira ia orientando.
- O meu pai conhece aquilo tudo. Dizia: “A partir das dez horas ali fica à sombra.” Ou: “Em Fevereiro aí só há carvalhos.” Ou: “Ouve-se o rio ou não…”
Quando o filme ficou pronto, Luís foi às duas estreias transmontanas, Bragança e depois Miranda. De que se lembra em Miranda?
- Os desenhos animados do Tex Avery foram um sucesso. Depois começou o filme e o ambiente começou a ficar estranho. As pessoas achavam que o Trás-os-Montes retratado devia ser em progresso, e não a fome, as pessoas a comerem neve.
Mas Luís acha que este mal-estar já se começara a preparar em Bragança.
- A grande diferença foi já se saber o que se ia ver.
E ele gostou?
- O primeiro momento foi ver como muitas coisas que eu não compreendia se encaixavam. Percebi que aquelas pessoas tinham feito um grande esforço para que aquilo acontecesse.
E agora?
- Tenho visto o filme uma vez por ano. O que valorizo mais é a visão poética do António sobre um território que ele adorava de forma avassaladora. Claro que ele tinha de ter uma narrativa, que aparecem personagens, a história da Margarida. Mas é fazer um poema sobre uma coisa de que se gosta muito.
António morreu em 1991. Margarida está na aldeia de Bemposta. Há quanto tempo não a vê?
- Telefonei há dois anos, tentei falar com ela por causa de um trabalho sobre o Jaime [filme anterior a Trás-os-Montes] para o meu doutoramento, mas não consegui. Também fui a Bemposta, e só estava a mãe. Mas gostava imenso de a ver.
E porque não vai?
Pausa. Luís sorri.
- É a vida. Quando vou a Bragança, é sempre a correr. Mas é verdade. Não tenho feito tudo para a ver.
Dia 22 na Pública: Entrevista com Margarida Cordeiro
Publicado em Documentos
Arquivo Fotográfico da Cinemateca Portuguesa
27.10.2009-27.11.2009
FNAC Colombo
Composta por material pertencente ao Arquivo Fotográfico da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, esta série de fotografias de rodagem do cinema português, feitas entre os anos 20 e os anos 70, focaliza-se sobretudo em dois períodos: o período clássico do cinema português, nos anos 30 e 40, e o Cinema Novo, nos anos 60.
In http://cultura.fnac.pt/Agenda/fnac-lisboa/fnac-colombo/2009/10/2/fotografias-de-rodagem-do-cinema-portugues
Publicado em Imagens
III MOSTRA DO CINEMA PORTUGUÊS – O NOVO CINEMA PORTUGUÊS (1960-1970)
O Laboratório de Cinema e Vídeo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense e a Cinemateca do MAM apresentam a III Mostra do Cinema Português – O Novo Cinema Português (1960-1970), entre 24 e 29 de novembro.
O evento contará com uma mostra de 07 longas-metragens e 06 curtas, que foram seminais para a cinematografia lusitana do período, em cópias oriundas da Cinemateca Portuguesa. Paralelo à retrospectiva haverá o curso de extensão “O Cinema Português e os seus filmes”, no período da manhã, e o I Simpósio “O Cinema dos Países Lusófonos: O Novo Cinema Português”, que ocorrerá à tarde no auditório da Cinemateca.
Inspirado na nouvelle vague francesa e no neo-realismo italiano, com o título fazendo referência ao cinema novo brasileiro, o novo cinema português se constituiu de um conjunto de filmes autorais e de vanguarda que representou uma mudança de rumos estéticos na história do cinema de Portugal.
PROGRAMAÇÃO
ter 24
16h – O novo cinema português – Os verdes anos de Paulo Rocha. Portugal, 1962. Com Rui Gomes, Isabel Ruth, Ruy Furtado. 102’. Complemento – Jaime de Antônio Reis. Portugal, 1973. 37’. >> Rapaz de dezenove anos vem tentar a sorte como sapateiro em Lisboa. No dia de sua chegada, um incidente leva-o a conhecer uma jovem empregada doméstica, da mesma idade. Premiado no Festival de Locarno.
Classificação etária – 14 anos
18h30 – O novo cinema português – Dom Roberto de Ernesto de Souza. Portugal, 1962. Com Raul Solnado, Glicínia Quartin, Luís Cerqueira. 102’. Complemento – Quem espera por sapatos de defunto morre descalço de João César Monteiro. Portugal, 1971. 33’. >> Juntamente com “Os verdes anos”, é uma das obras fundadoras do novo cinema português. A vida miserável de um vagabundo sonhador, a quem as crianças chamam de Dom Roberto. Classificação etária – 14 anos.
qua 25
16h – O novo cinema português – Belarmino de Fernando Lopes. Portugal, 1964. Com Belarmino Fragoso, Jean Pierre Gleber, Albano Martins. 72’. Complemento – As pedras e o tempo de Fernando Lopes. Portugal, 1961. 16’. >> A câmera acompanha a rotina diária do campeão de boxe Belarmino Fragoso. Classificação etária – 14 anos.
18h30 – O novo cinema português – O cerco de Cunha Teles. Portugal, 1970. Com Maria Cabral, Miguel Franco, Ruy de Carvalho. 115’. Complemento – Pousada das chagas de Paulo Rocha. Portugal, 1971. 20’. >> Um olhar sobre a sociedade urbana portuguesa dos anos 1970. A história de uma garota que abandona o marido para encontrar sua verdadeira identidade. Classificação etária – 14 anos.
qui 26
16h – O novo cinema português – Domingo à tarde de Antônio Macedo. Portugal, 1965. Isabel de Castro, Ruy de Carvalho, Isabel Ruth. 97’. Complemento – 27 minutos com Fernando Lopes Graça de Antônio Pedro Vasconcelos. Portugal, 1969. 27’. >> Reflexões de um médico sobre a vida e a morte diante da angústia de uma jovem paciente terminal. Classificação etária -16 anos.
18h30 – O novo cinema português – Brandos costumes de Alberto S. Santos. Portugal, 1974. Com Luís Santos, Dalila Rocha, Isabel de Castro. 72’. Complemento – Almadraba atuneira de Antônio Campos. Portugal, 1961. 27’. >> Um retrato da vida cotidiana de uma típica família classe média em paralelo à queda do “Estado Novo”, os 48 anos da ditadura Salazar. Classificação etária – 14 anos.
sex 27
16h – O novo cinema português – O recado de José Fonseca e Costa. Portugal, 1971. Com Maria Cabral, Francisco Nieto, Luís Filipe Rocha. 110’. Complemento – Velhos amigos de Michele Salles. Brasil, 2009. 52’. >> Lúcia é cortejada por António, da mesma classe social que ela, mas nutre uma memória afetiva por Francisco, um marginal meio aventureiro. “Velhos amigos” é um documentário sobre o cinema português. Classificação etária – 16 anos.
sab 28
16h – O novo cinema português – Belarmino de Fernando Lopes. Portugal, 1964. 72’. Complemento – As pedras e o tempo de Fernando Lopes. Portugal, 1961. 16’. >> Ver programação do dia 25.
18h – O novo cinema português – Os verdes anos de Paulo Rocha. Portugal, 1962, 102’. Complemento – Jaime de Antônio Reis. Portugal, 1973. 37’. >> Ver programação do dia 24.
dom 29
16h – O novo cinema português – Brandos costumes de Alberto S. Santos. Portugal, 1974. 72’. Complemento – Almadraba atuneira de Antônio Campos. Portugal, 1961. 27’. >> Ver programação do dia 26.
18h – O novo cinema português – O novo cinema português – O cerco de Cunha Teles. Portugal, 1970. 115’. >> Ver programação do dia 25.
Esta programação conta com cópias da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.
Mais informações in http://www.mamrio.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=193&Itemid=33
Publicado em Exibições
Como tudo e nada mudou em terras de Miranda
Uma aldeia que já é vila wireless, e atrás do monte um pastor que se enforca. Um pauliteiro que ontem dançou em Nova Iorque, e hoje não tem emprego. Escola para todas as crianças, e não há crianças. A seguir ao 25 de Abril, António Reis e Margarida Cordeiro filmaram estas terras entre Miranda e Bragança. Que é feito dos lugares e das pessoas de Trás-os-Montes? Um Portugal interior que fomos, e ainda somos. Primeira parte.
Por Alexandra Lucas Coelho (texto) e Nelson Garrido (fotos).
Excerto da entrevista a Margarida Cordeiro em videos.publico.pt
Quando em Bragança perguntamos:
- Qual é o melhor caminho para Miranda?
Toda a gente responde:
- Ide por Espanha.
No mapa parece um saltinho, duas cidades tão próximas lá na ponta interior de Portugal. Mas, vendo melhor, a estrada boa é a que sai de Bragança, dá uma volta espanhola e desce para Miranda. A outra, toda portuguesa, é às curvas. Havemos de a fazer (e de enjoar), mas à volta. Para já, vamos então por Espanha.
Quando António Reis e Margarida Martins Cordeiro aqui começaram a filmar Trás-os-Montes, havia uma fronteira a sério, com posto da guarda e contrabandistas a monte. Dava uma trabalheira a entrar – e agora entramos mesmo sem querer.
É a hora do poente. As folhas brilham como espelhos. As placas na estrada anunciam Alcañices, depois Parque Natural do Douro Internacional e, enfim, a aldeia mirandesa de Ifanes/Infainç.
Estamos em território bilingue.
O mirandês ainda não era língua de lei no tempo em que Trás-os-Montes foi rodado. Mas as leis da capital ficam muito longe, diz um mirandês no filme. É um excerto de Kafka (A Grande Muralha da China), mas quem não sabe não identifica. Aquelas palavras são a realidade desta gente, não têm nada de ficção.
Assim é ao longo do filme, rodado em 1974-75, estreado em 76, pouco visto desde então, e no entanto essencial para saber quem somos.
Trás-os-Montes fala-nos “de quanto pode ser dito sobre a nossa morte-vida, por quem dela vive e morre”, escreveu João Bénard da Costa. É “um dos grandes actos de amor e criação que a arte feita por portugueses nos tem dado” e “uma das poucas pedras do caminho que nos pode ajudar a reencontrar a direcção”.
E quando o filme se estreou em Paris, no Le Monde saiu “uma ordem terrorista assinada pelo Joris Ivens e pelo Jean Rouch, os dois mestres supremos do cinema documental: “Allez voir, toutes affaires cessantes, Trás-os-Montes!” [Deixem tudo para trás e vão ver Trás-os-Montes!]“, lembrou o cineasta Paulo Rocha.
“Nunca, tanto quanto sei, um realizador se havia empenhado, com tal obstinação, na expressão cinematográfica de uma região: quero dizer, a difícil comunhão entre homens, paisagens e estações”, disse Rouch.
António Reis e Margarida Cordeiro não registam o lugar sem interferência. Agem sobre ele, constroem-no até lhe tocarem no fundo, na sua memória mais antiga – as fábulas do tempo pagão, o fantasma da fome e do abandono, a vida com todos e com os animais, o gelo que se parte com os pés e se chupa nas palhinhas, a forma como a luz muda ao longo do dia, um pastor que assobia no Verão como Pã e treme no Inverno enrolado num cobertor. Tudo isso é real como um poema.
Cá estamos, 34 anos depois da rodagem.
Granito, xisto, azulejos de emigrante, e entramos em Miranda, o abismo do Douro à esquerda, a ruína do castelo à direita, Lhargo de L Castielho.
Aqui fica a pensão-restaurante Santa Cruz. No tempo de Trás-os-Montes era só restaurante. A dona lembra-se de os autores aqui virem comer. E agora o filho dela vai ser presidente da câmara. Toma posse depois de amanhã.Padre, sobrinho de padre
Um néon vermelho a piscar: “Restaurante.” Mais adiante néons azuis, verdes: cafés. Noite de Outono e nem uma brisa. Gente à porta, como o Miguel, que anda na Covilhã em Ciências Biomédicas mas não deixa de ser pauliteiro.
Há o grupo da cidade e depois cada aldeia tem os seus pauliteiros. Os que aparecem em Trás-os-Montes eram de Duas Igrejas. Dirigia-os um padre que deixou de o ser para casar, António Rodrigues Mourinho. O nome aparece no genérico com um agradecimento especial.
Morreu há anos, mas o sobrinho vive em Miranda, aconselhou a responsável da cultura na câmara: “É historiador.” Também se chama António Mourinho, e, como se verá, também foi padre e deixou de o ser para casar.
- Vão até à casa em frente às antenas, com uma palmeira – indica-nos, por telemóvel.
Miranda já tem uns arredores, umas rotundas, quem vem de fora até se perde. Mas cá está António Mourinho ao portão, a fazer entrar. Uma Nefertiti emoldurada na parede, reposteiros e torneados, mesa de vidro com bibelôs. Aí pousamos o portátil para mostrar as cenas com os pauliteiros. Trás-os-Montes não está disponível em DVD, mas temos uma gravação, gentilmente emprestada pelo cineasta Manuel Mozos, de quando o filme passou na RTP.
- É o grupo de Duas Igrejas, não há dúvida! Cá está a Casa Paroquial, o poço, as escadas. O meu tio viveu ali 42 anos e eu fui praticamente ali criado. Os pauliteiros ensaiavam no andar de cima que o meu tio mandou fazer.
Nessa altura, o tio ainda era padre.
- Eu casei em 83 e ele casou em 84. Este é o meu tio! – aponta. – E este é o tio Belmiro, que era ensaiador principal e tocava bombo. O meu tio ia buscá-lo à Freixiosa.
Agora o filme mostra uma mulher à porta de um quarto a ver dos filhos. Três para a cabeceira, dois para os pés, cinco numa cama.
- Não me parece que o meu tio tenha dado grande aceitação a isto – diz António Mourinho, franzindo a cara. – Acho que no modo de pensar dele isto não retratava o povo transmontano, que é de Vila Real para cá. O nosso Trás-os-Montes tem regiões muito diferentes, o quente e o frio, o da oliveira, o do trigo, o da amendoeira, o da vinha.
Aponta para o ecrã.
- Isto é uma amostra, mas o meu tio nunca ligou grandemente a este filme. Sim senhor, havia casas destas, em que os miúdos dormiam aos quatro e cinco, e dizia-se que havia fome. Mas comia-se presunto e galinhas criadas em casa, mais saborosas que em Lisboa. Nós não tínhamos meios de comunicação, agora fome não tínhamos.
Já amanhã, em Duas Igrejas, vamos encontrar um pastor a falar de fome. E depois de amanhã, em Bemposta, Margarida Cordeiro vai contar como a mãe dela tinha a barriga inchada de fome.
O tão português desagrado do ex-padre Mourinho é o de quando o filme se estreou em Miranda. Houve revolta, quiseram cortar os cabos, queimar a película porque aparecia uma mãe a apanhar neve e a servi-la à mesa. É essa cena que aparece agora no ecrã, com a extrema realidade de um poema.
- A nossa gente olha para isto e diz: “O quê! À nossa mesa nunca se comeu neve!” Criou-se uma ideia muito irrealista quanto a Trás-os-Montes.
Mas António Reis, nascido junto ao Porto, achou-se renascido em Trás-os-Montes, conhecia estas terras como suas, e Margarida Cordeiro era transmontana, da Bemposta.
- Uma psiquiatra idealista que nunca captou a realidade – teima António Mourinho. – Bemposta não era assim tão pobre. Não havia mendigos!
No filme também não há mendigos.
- Trás-os-Montes só passou a ser isolado com o liberalismo. Nos séculos XVII e XVIII, principalmente depois que o bispo veio, havia teólogos, filósofos. Tivemos três bispos que foram reitores da Universidade do Minho.
Aponta para o ecrã.
- Há um exagero aqui. Isto seria 20 por cento da realidade. Quase toda a gente colhia o seu pão, tinha a sua horta, matava o seu porco, tinha a sua capoeira e coelheira. Não havia dinheiro, mas trocavam-se sardinhas por pão.
E hoje?
- Está muito diferente. Há melhores meios de transporte. O que não mudou foi a indústria, Trás-os Montes não tem. E os campos estão todos por semear. A falta de trabalho chegou a tal ponto que emigram cada vez mais para a Espanha, a Suíça, a França. As nossas aldeias, é tudo velhos, praticamente. Não há crianças. Hoje as crianças ficam caras e os pais não se aventuram.
Mas se alguém puser isto num filme, haverá por certo quem não goste.
Noite em Duas Igrejas
Meia dúzia de quilómetros até Duas Igrejas e está tão escuro como na estrada. Ainda haverá vivos? E estas janelas fechadas, estas ruas desertas, nem um cão, o velho apeadeiro do comboio.
Em Trás-os-Montes há comboios que chegam de noite, do nada, e atravessam os montes, só fumo e assobio. Hoje, restam os apeadeiros abandonados, com os seus beirais de Estado Novo.
Damos voltas de carro à procura da Casa Paroquial, damos com a igreja, e nada, ninguém.
Até que ao fundo de uma rua aparece um néon laranja. Chegamos perto: “Associação Cultural Pauliteiros de Miranda.” E a placa antiga por trás: “Casa do Povo, património e sede da Junta de Freguesia e Centro de Saúde de Duas Igrejas.”
Lá dentro também há luz, bar com balcão de alumínio, mesas de fórmica, ecrã ligado na SIC, André, 42 anos de peso, anfitrião para o que precisarmos, ao lado da mulher, Paula. Ainda é hora de jantar, não há muito movimento, querem ver imagens de Trás-os-Montes, sim senhor.
- É o padre Mourinho!
- O tio Belmiro!
- A Ana Maria!
- Parece a garota dela agora!
- O Domingos, que agora é presidente da junta!
- O Artur!
Vão buscar fotografias de há mais de 30 anos, o Artur vestido de pauliteiro.
Paula deita um mel escuro no chá de limão, e que mel.
Ainda há escola em Duas Igrejas?
- Há, mas fechou. As crianças vão a Miranda.
Quantas crianças?
Paula conta pelos dedos.
- Sete.
Nas paredes há fotografias antigas a preto-e-branco. Começam a entrar homens. Bebem uma mini a olhar para a televisão. André, que também foi pauliteiro, traz uma placa de honra: “Associação de Pauliteiros de Miranda do Douro – pelo espírito de corpo, dedicação, sacrifícios e exemplar patriotismo.” Foram a Newark pelo 10 de Junho. Os de agora, está claro, não os do filme.
E nem de propósito, entram dois jovens pauliteiros. Não têm ensaio marcado, mas dado o interesse logo ali começam a congeminar ensaio para amanhã. Para dançar são precisos oito, para tocar três. Mas podem dançar um ensaio sem música.
Fica combinado.
Do rio ao pastor
De manhã há que ver isto, o Douro nas arribas de Miranda. O sol bate na água e os choupos deixam cair folhas como lâminas de ouro. Para a direita são as barragens, Miranda, Picote, Bemposta. Mas para a esquerda, depois da curva, não há mão humana. Vêem-se águias, abutres, pinguins do rio, azinheiras centenárias encastradas nas rochas.
Do lado de lá é Espanha.
E alguém há-de aparecer para nos fazer ver o “2″, que é mesmo um “2″ perfeito na rocha. A lenda é que as solteiras que o não vejam não casam, e as casadas que o não vejam são enganadas. Para os homens ficava a melhor parte naturalmente, e não foi assim há tanto tempo, ainda agora. Por exemplo, Ilídio Cristal, que tem um café aqui, não compreende que haja um grupo de pauliteiras.
- Nunca houve – é o argumento dele.
À beirinha da água, Alípio e Celeste vieram à pesca. São reformados, “a caminho dos 70″, da aldeia de Cércio.
- Antes de haver a ponte, passavam com umas cordas para a Espanha.
- Antes era crime, agora não.
Estão a falar em português. Não falam mirandês?
- Correctamente. É a nossa primeira língua. Não é um dialecto, é uma língua, e hoje já se ensina na escola. Mas se a falássemos, não capichavam nada. Teneis que ficar aiqui muito tiempo para poder aprender al mirandês.
Os dois filhos, formados e bem, lá na capital, falam mirandês, mas os netos já nasceram longe daqui, como hão-de falar?
Sendo quase meio-dia, Alípio e Celeste vão almoçar e nós vamos pela estrada das aldeias, até encontrarmos um pastor, no fim de Duas Igrejas. Está sentado nas ervas enquanto as ovelhas pastam.
Trás-os-Montes abre e fecha com pastores, sempre crianças.
- As crianças eram proibidas de andar com o rebanho, mas andavam porque os pais tinham outras coisas que fazer – diz.
Tem nome de nobre, Lázaro Afonso de Castro. Boné sobre as rugas, mãos duras sobre o cajado, 62 anos.
- Agora só os velhos é que fazem isto.
O seu rebanho conta 130 ovelhas. São para criar carne.
- Aqui não se faz queijo. Em Mogadouro já se faz queijo de ovelhas, mas aqui não.
Pausa. As nuvens passam-lhe por cima da cabeça. Sol-sombra.
- É uma miséria ter um rebanho. Tenho de pagar muitas rendas para fazer forragem para elas. Quem tira o benefício é o dono da terra. Agora, se tivesse um cento de cordeiros, vendia-os bem. Mas o ano veio ruim, seco, miserável. Para o que cultivamos, não deu nada. Nos outros anos fiz 150, 200 rolos de aveia, e este ano 30 ou 40. Só quem não pode fazer outra coisa é que faz isto. Eu tenho as vértebras completamente destruídas, não posso trabalhar e tenho de me sujeitar a fazer isto. Digo-lhe a verdade: se não derem um bocadinho de subsídio, a gente morre de fome. Ainda outro dia um pastor suicidou-se. Meteu uma forca ao pescoço porque não conseguia cobrir a despesa, já tinha muito débito. Teria 54 ou 55 anos. Tinha oito filhos. Viveu toda a vida do gado e agora viu-se obrigado a suicidar-se. Tinha um rebanho muito bom, alugava muitos terrenos, mas chegou um momento em que já não tinha dinheiro para pagar a vacinação. Chamava-se Narciso, mas chamavam-lhe Granado. Era de Vilar Seco.
A dez quilómetros daqui. E a família?
- O gado, venderam-no. E os filhos andam a ganhar a vida em Espanha.
Lázaro costuma vender trigo à cooperativa de rações para vacas e porcos.
- O ano passado pagaram a 20 cêntimos o quilo. Este ano a 13. Depois acumulam-se as despesas.
Mas a vida dele não foi isto. Emigrou para França, como muitos.
- Estive em Bordéus 20 anos nas obras, no duro, por isso é que tenho a coluna como tenho.
E asma crónica. Por causa da saúde voltou a Portugal, o dinheiro de emigrante deu-lhe para mais 20 anos, até agora.
- Vou ganhando para sobreviver, mal, mal. Tenho uma neta com cinco anos. Tinha dois e meio quando a mãe morreu de leucemia.
A filha dele.
Põe a mão dura nos olhos, baixa a cabeça. Assim ficamos.
- A vida às vezes começa a virar, a virar. É má. Muito má.
O filho está em Paris, vem passar férias em Agosto. A neta vive com ele e com a mulher. É uma das sete crianças de Duas Igrejas que vão à escola a Miranda.
Quartel-general na Gabriela
Casas amarelo-canário. Outro rebanho antes de Fûonte Aldé. Uma pastagem com água e uma pedra pousada, como suspensa. Oliveiras e vinha.
A próxima aldeia é Sendim.
Sendo hora de almoço, vamos à Gabriela, restaurante e pensão, inventora da posta mirandesa. A receita passou para a filha Alice e depois para a neta Adelaide, esta rapariga que afinal tem 50 anos, não se acredita. Carne daqui, grelhada na lareira, um molho com vinagre, e batata em quartos alourada. Assim se alimentou a equipa de Trás-os-Montes.
- Era aqui que faziam quartel-general. Vinham às dez e às onze da noite, cheios de fome. “Ó tia Alice!” E a minha mãe dava de comer àquela gente toda. A dona Margarida Cordeiro é que lhes pode contar tudo.
Lá iremos, lá iremos.
- O António Reis lidava com as pessoas tu cá tu lá. Tinham empatia com ele. Quem andava com ele era porque queria. Ofereciam-se para colaborar. E como a mulher era daqui, mais confiança arranjou. Nesse tempo Sendim tinha muito mais gente, muito mais crianças. Tinha oito professoras primárias. Hoje, são três para 50 ou 60 alunos, e vêm destas aldeias à volta. Aqui não há emprego, indústria, e as pessoas fogem. Morrem 25, 30 pessoas por ano, nascem três ou quatro.
Onde?
- Vão nascer a Bragança. Agora até já nascem muitas no IP4. Já não há hospital em Miranda, vai tudo para Bragança e para Mirandela. Se temos um enfarte, adeus viola.
Sendim chegou a ter 4000 pessoas. Hoje tem pouco mais de mil. A filha de Adelaide acabou Medicina em Coimbra. Quem vai ficar com a receita da bisavó é o filho, engenheiro florestal de formação. Há muita gente formada em Sendim, diz Adelaide. Mas isso também quer dizer que poucos vão ficar em Sendim, porque poucos podem viver disto, o homem na horta, a mulher na cozinha:
- Tenho a minha batata, os meus licores, as minhas compotas, o meu azeite, o meu feijão, os meus legumes. Era o meu pai que tratava, agora é o meu marido.
Não se passa fome, mas falta gente.
A contra-corrente disto são os novos activistas, a associação que defende os burros em extinção, ou o centro que o melómano Mário Correia montou, quando veio viver para Trás-os-Montes. Adelaide telefona-lhe e anuncia que estamos a caminho.
É andar uma rua, nem cinco minutos, isto se não desviarmos na Rue de Roi para falar com dona Ana da Conceição Afonso, que tem 80 anos e se veste de preto, com lenço, como as mulheres de Trás-os-Montes. Também tem abóboras no telhado como as há no filme, e podia ter sido uma feirante de sucesso, porque logo ali nos pesa um quilo de figos, que na verdade não pedimos. Dois euros e meio.
- Tenho os filhos pelo mundo. Um em Pinhal Novo e os outros no Porto.
O tamanho do mundo varia sempre. Do degrau de dona Ana, parece tudo muito longe. Mas voltando a esquina, no Centro de Música Tradicional Sons da Terra, tudo parece perto. Além disso, como esclarece Mário Correia, que agora nos abre a porta, basta um computador.
- Sendim é vila wireless. “Quem não semeia o progresso faz morrer a tradição.”
A frase está na parede.
Mário guarda em perfeita organização toda uma discoteca, biblioteca e filmoteca que são memória viva. E usa a melhor técnica possível para as recolhas de música e literatura oral que tem feito, 1800 horas.
- Gravar, gravar, gravar, para documentar.
Sem lamentos.
- Ainda bem que já não cantam nas cegadas, a apanha do trigo, que era duríssima, de sol a sol, com temperaturas de 40 graus. A poeirada que se levantava, o calor asfixiante.
Mas ainda bem que pauliteiros e gaiteiros estão em grande.
- Fiz aqui cursos de gaiteiros e hoje tenho muita proa de os ver por aí com os pauliteiros. Nos anos 80 estavam praticamente desaparecidos.
Oito a dançar
À noite, de volta a Duas Igrejas, vamos então ver como dançam aqueles que nasceram depois de Trás-os-Montes.
Abrem o salão grande da associação e põem-se frente a frente, quatro de cada lado. O mais novo tem 16, o mais velho 26, a média ronda os 20. Gel no cabelo, blusões, jeans. Um soldado (César); um empresário agrícola (Emanuel); um aprendiz de pasteleiro (André); um estudante de Electrónica (José) e um restaurador que tirou Electrónica (Paulo); um finalista de liceu que quer ser veterinário (Edgar); um mecânico empregado (Bruce) e outro desempregado (Tiago).
Quem vai fazer o salto-de-castelo – pirueta por cima de todos os outros – é José e depois Edgar, eleitos os mais ágeis.
Dançam três lhaços, ou seja três danças, com um mais-velho a fazer percussão com a voz. E no fim falamos em roda.
O que é que lhes falta?
- Dinheiro.
- Movimento.
- Gente.
- Uma pessoa sai à noite e não se passa nada.
- Mulheres.
- Trabalho.
- Trabalho há muito. Emprego.
- Indústrias.
- Ajudas do Estado para a cultura.
- Médicos.
- Um hospital ou um helicóptero. Tive o azar de me falecer um irmão.
E o que significa ser pauliteiro?
- Um gosto.
- Uma honra.
- Orgulho. Não deixar morrer as nossas origens. Tem de pôr que fomos a Nova Iorque em Junho.
Pois, a Newark.
- Não. Também dançámos em Times Square à noite.
No meio da rua. O trânsito estava cortado. Com saias e paus, imaginem a sensação.
A família do pescador
Bemposta é a aldeia seguinte. A família Velho vive numa casa logo à entrada, com uma figueira no quintal. No genérico do filme aparece várias vezes o apelido Velho. Entraram quase todos, pais e filhos. Em terras de Miranda, são eles os protagonistas.
Cá está António Velho, a quem todos chamam Escalo, ou Escalico, nome de peixe, porque era pescador e peixeiro. Em Trás-os-Montes é ele de motorizada a trazer peixes a uma garota; é ele de barco a ensinar o filho mais velho a pescar; é ele que se vem sentar no escano – o tradicional banco de lareira -, ao lado da mulher. São deles os cinco filhos numa só cama.
E aqui estão os filhos, trintões, quarentões, solteiros, de mãos nos bolsos, maus dentes.
Foi a droga, diz-se em Bemposta, dirá Margarida Cordeiro. Pai e mãe trabalharam muito e é o que se vê. Cheguemo-nos ao quintal: comida de galinha, baldes velhos, restos. Cá fora enjoa e lá dentro moscas.
Mas aos 72 anos, a energia de António “Escalico” Velho é um portento. Só anda de bengala, dói-lhe muito uma perna, e não pára nem se cala, riso aberto.
Chama a António Reis “poeta Reis”.
- O poeta Reis pediu e a gente ia. Não ganhávamos nada, às vezes lá davam mil escudos.
Maria da Glória Barros Novais Velho aparece de bata nas traseiras, grisalha, botas de borracha, dentes a menos. No filme tem uma beleza melancólica, escura. E de repente olha-nos a direito e é ela:
- “Não fica ninguém. Vai-se embora a filha da Mariana e amanhã quem será?”
São as palavras que António Reis e Margarida Cordeiro lhe deram para dizer, há 35 anos. Ainda as sabe de cor, aqui, nestas traseiras do mundo.
- Outra vez a doutora pôs-me de chefe numa moagem com uma bata branca. Outra vez eu fazia que vinha do campo. Punha as alforjas às costas e ia ver se os filhos estavam bem.
Não filmaram em casa deles, levaram-nos para Duas Igrejas.
- Mas era a realidade, dormíamos quatro numa cama. Antigamente não tínhamos posse para cada um ter um quarto e eles foram criados assim.
Continuam quatro em casa. A filha em França.
- Primeiro emigrou para Itália. Era empregada da dona Donatella.
Donatella Versace.
- Ganhava mais do que as outras todas, mas a dona Donatella era uma senhora muito difícil. Agora a minha filha está há três anos em França, trabalha a tomar conta de casas de férias.
E os rapazes aqui?
- Trabalham para a junta, a limpar estradas e a fazer muros. Dois vão para o fundo de desemprego. Os outros têm estado na Espanha, mas lá também está no “paro”.
Vamos para a cozinha ver o filme, toalha de plástico, lareira no chão, pote de ferro.
- Quando o rio gelava, partíamos o gelo à bordoada, tirávamos o peixe com as mãos, sem ver nada, escalos, barbos, bogas. Era da meia-noite até de manhã, porque mais cedo o peixe estraga-se.
António chama o filho mais velho para se ver no filme. Ele vem, 45 anos sem jeito, mas de perfil é o Carlos de Trás-os-Montes.
Ainda têm barco no rio. Combinamos para as oito da manhã.
E às oito da manhã somos nós que nos atrasamos. Pai e filho estão prontos, metem-se no carro, guiam-nos pelos caminhos florestais no meio do nevoeiro, até descermos a pique para o Douro, e que visão.
António “Escalico” Velho caminha nos flutuadores como se não tivesse bengala e senta-se na proa do barco, um barquito de chapa com remos de madeira e tábuas para sentar. O filho rema e não aceita ajuda. É como no filme, só eles e a água, entre encostas de zimbro, esteva, pinho e azinheiras.
- Eu e a minha mulher dormimos muitas noites neste barco. Fazíamos a cama aqui até chegar a hora de pescar.
Chama “flor” à mulher, conta como “tinha vaidade nela”, ele um órfão “criado aos pontapés”. E a voz de Escalico, o homem do rio, é tudo o que se ouve, a chamar gajos aos corvos marinhos e poeta a António Reis. A conhecer o rio de olhos fechados.
- Eu era terrível para os peixes!
Amanhã: Das aldeias de Bragança a um atelier no Porto
Dia 22 na Pública: Entrevista com Margarida Cordeiro (excerto em videos.publico.pt)
As citações de João Bénard da Costa, Paulo Rocha e Jean Rouch estão disponíveis no blogue antonioreis.blogspot.com, trabalho minucioso e dedicado de António Neves, ex-aluno de António Reis (1927-1991).
Publicado em Documentos
O caderno P2 da edição de hoje do Público publica a primeira parte de uma reportagem (as segunda e terceira saem nos dois próximos dias) conduzida por Alexandra Lucas Coelho nos espaços que, há 34 anos, serviram de cenários ao filme do casal António Reis/Margarida Cordeiro.
Ver promoções em:
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=1c275063-3ede-45db-854e-a811b58ea052
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=6bc895e7-4d56-490d-911b-93f1100625ef
Publicado em Agenda
OSTROWSKA, Dorota – Reading the French New Wave: Critics, Writers and Art Cinema in France. Londres: Wallflower Press, 2008.
ISBN: 9781905674572
Introdution – 1
1. Phehistory:1951-59 – 19
2. Revisions:1959-61 – 59
3. Fusions: Jean Cayrol – 97
4. Theory: 1963-67 – 123
Conclusion – 169
Notes
Bibliography
Index
Publicado em Bibliografia
SHIEL,Mark – Italian Neorealism: Rebuilding the Cinematic City. Londres: Wallflower Press – Short Cuts, 2005.
ISBN: 9781904764489
Introdution: describing neorealism – 1
1. The origins of neorealism – 17
2. Neorealism’s first phase – 37
3. Neorealism and the city – 63
4. The battle of neorealism – 80
5. Neorealism’s second phase – 96
Conclusion: legacy of neorealism – 122
Biliography
Index
Publicado em Bibliografia

KNIGHT, Julia – New German Cinema: Images of a Generation. Londres: Wallflower Press – Short Cuts, 2004.
ISBN: 9781903364284.
Introdution – 1
Origins: from ‘autor’ to audiences – 7
Achievements: counter-myths of german identity – 45
Demise: into a new era – 93
Nots
Bibliography
Index
Publicado em Bibliografia
O’PRAY, Michael – The Avant-garde Film: Forms, Themes and Passions. Londres: Wallflower Press – Short Cuts, 2003.
ISBN: 9781903364567
1. The avant-guarde film: definitions – 1
2. The 1920’s: the european avant-guardes – 8
3. The 1920′2: soviet experients – 26
4. The 1920’s and 1030’s: british avant-guarde films – 38
5. The 1940’s: american mythology – 48
6. The 1950’s: the aesthetics of the frame – 58
7. The 1960’s: the new wave – 69
8. The 1960’s: sex, drugs and structure – 84
9. The 1960’s and 70’s: form degree zero – 96
10. The 1980’s: the ghost in the machine – 107
11. 1990’s: the young british artists – 119
Bibliography
Index
Publicado em Bibliografia
“A famosa cena de Janet Leigh (como Marion) a ser esfaqueada no chuveiro em Psycho (1960), de Alfred Hitchcock, não aconteceu na Espanha do “Generalíssimo” Franco. Com comentários dos censores quase pueris, mas por razões religiosas, sexuais, políticas, etc., foram “mutilados” ou censurados ao longo de 40 anos cerca de 500 filmes, conta o jornalista Alberto Gil no livro A Censura Cinematográfica em Espanha.
Além dessa cena de Psycho, por causa de um “nu” (na realidade, Leigh tinha um fato cor de pele), o Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, em que Jack Lemon e Tony Curtis se vestem de mulheres ao lado de Marylin Monroe, nem sequer chegou aos ecrãs. “Prohibida, aunque sólo sea por subsistir la veda de maricones” ["Proibida, ainda que seja só por subsistir a proibição de maricas"].
Com o zeloso empenho de 100 censores, multiplicaram-se os exemplos: em Casablanca, foi suprimido o passado de militante republicano da personagem de Humphrey Bogart – poucos autores escaparam à sarna moralista dos arbitrários censores, que gostavam de fazer um trabalho invisível e premiavam as distribuidoras quando isso acontecia (castigando-as quando se notavam os cortes).
Alberto Gil conclui que os censores eram “arbitrários” a decidir, o que era amoral e que a chegada, em 1962, de Jose María García Escudero à direcção da Cinematografía foi uma “falsa esperança”. “
In http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1407140&seccao=Cinema
“Desde 1937 en plena Guerra Civil hasta noviembre de 1977, momento en que fue suprimida por decreto bajo el mandato de Adolfo Suárez, toda la producción cinematográfica destinada a las pantallas tuvo que superar el visto bueno de los censores, unos señores que decidían qué se podía ver o no, que contenidos eran válidos o no para la sociedad española, cuidando de la permanencia de la moralidad y de los ideales nacionales. La censura cinematográfica en España por Alberto Gil nos introduce en el absurdo mundo de la censura española, mostrándonos la sinrazón y el sinsentido general que provocó que el cine llegara a las pantallas mutilado, recortado, tachado y alargado, pero apto para las mentes de todos los españoles.
Con un tono respetuoso pero al mismo tiempo haciendo patente la absurdidad y contradicciones del sistema censor, Alberto Gil nos presenta las conclusiones que obtuvo de los dos años que pasó inmerso en el Archivo General de la Administración, rescatando expedientes, copiando párrafos y frases antológicas encontradas en los mismos, y fotocopiando carteles y fotos promocionales tachados o modificados. Agrupados los capítulos en tres temas fundamentales, el amor y el sexo, la religión y la moral, y la política y la sociedad, se hace patente la opinión variable de los censores sobre temas tan variopintos como los besos, la homosexualidad, el baile, los bajos fondos, el adulterio, el matrimonio y el divorcio, lo español, el fascismo, etc.
Así nos enteramos de la intervención en obras de la talla de “Psicosis” de Alfred Hitchcock, catalogada como una obra maestra del montaje cinematográfico, en la que se recortaron todos los planos de desnudo de la memorable escena del asesinato de Marion a manos de Norman Bates. También de la prohibición de “Roma Ciudad abierta” de Rossellini acusada de comunista, ó el corte de una de las secuencias de “Bananas” de Woody Allen, donde un sacerdote al toser un fiel al que va a dar la comunión aprovecha para hacer propaganda de una marca de cigarrillos parodiando los anuncios de televisión, ó la polémica creada tras el estreno de “Jesucristo Superstar”, incluyendo en el expediente las cartas reprobatorias de varios representantes de organizaciones cristianas.
Incluye un interesantísimo apéndice con reproducciones de los carteles o fotografías censurados con los apuntes a bolígrafo de los mismos censores, en el que se retocan escotes, alargan faldas, se suprimen palabras como “amante” o cualquier término relacionado con la cama o sus accesorios. Y se indaga en el arbitrario cambio de los títulos de los estrenos, como la transformación de “El juicio de Nuremberg” en “Vencedores o vencidos” ó, por el contrario, la inocua “Cara a cara” de Ingmar Bergman por el más sugerente “Cara a cara al desnudo”, y en la supresión en los diálogos de palabras habituales como puñetera teta, cabrear, etc., por expresiones ñoñas que quitaban el sentido y el ardor a los personajes.
Un estupendo libro que nos hace reflexionar sobre la responsabilidad de la censura por la cantidad de películas que cambió, prohibió o mutiló, por los directores que vieron sus obras alteradas por unos individuos que arbitrariamente cambiaban un final, una escena, un diálogo, etc.., Un libro que se pregunta qué influencia tuvo dicha labor en una sociedad que consumió cine alterado y que impidió en su totalidad el desarrollo de la carrera de grandes directores como Buñuel, Berlanga ó Fernando Fernán Gómez, y que incluso es considerada fuera de nuestro país una de las más activas y absurdas, como se dice textualmente en la publicación especializada el “Dictionnaire de la censure au cinema”,”Pocos países han alcanzado las cimas de una censura triunfante como la española de Franco, convirtiendo en un verdadero sistema el absurdo de sus principios y sus contradicciones”.
In http://blog.metropolislibros.com/libros-de-cine/la-censura-cinematografica-en-espana-por-alberto-gil/
“La censura cinematográfica en España de Alberto Gil
¿Qué es lo que tuvo de esperpento la censura cinematográfica en España? ¿Según qué criterio arbitrario actuaba? ¿Qué contratiempos implicaba el papel de los censores en la ya de por sí precaria industria cinematográfica española de aquellos años? ¿Qué decir sobre tabúes como el del ombligo o el momento histórico de la aparición del primer bikini en las pantallas españolas?
Alberto Gil, además de dar respuesta a todas estas preguntas, nos cuenta quiénes fueron los principales censores, qué los ponía más nerviosos, qué opinaban sobre su tarea el público o la industria del cine y cómo los productores intentaban burlar su vigilancia.
La censura cinematográfica en España es un ensayo lleno de anécdotas curiosas que giran entorno a tres grandes ejes temáticos – el amor y el sexo, la moral y la religión y la política y la sociedad -, a través del cual su autor nos muestra la brutalidad de las normas vigentes y la extravagancia de su ejecución que acabaron por reducir el cine español a un clima de supervivencia.
Para más información, no dudes en contactar con nosotras.
Departamento de Comunicación:
Carmen Romero: 91 435 14 04/608 101 736 cromero@edicionesb.es
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In http://literaturasnoticias.blogspot.com/2009/10/114-la-censura-cinematografica-en.html
Publicado em Diversas
Amanhã, dia 2 de Novembro, Paulo Rocha estará presente na homenagem que o Faial Films Fest lhe presta com a exibição de Os verdes Anos.
“Animada do conceito que tão bem resultou em 2008, a 5ª edição do Faial Filmes Fest tenta consolidar o que funcionou melhor e corrigir defeitos: manter-se-á a homenagem a um realizador nacional – no caso, Paulo Rocha –, renovar-se-á o abraço entre o Cinema e a Literatura, com a Música pelo meio, e abrir-se-ão de novo os espaços de confraternização e partilha; por outro lado, conferir-se-á mais espaço qualitativo e quantitativo às Secções Competitivas e à Formação, reforçando a sua participação no Festival.”
In http://www.faialfilmesfest.cineclube.org/sitefff09/01.html
“PAULO ROCHA
Para toda uma geração – de cineastas portugueses mas não só -, os primeiros acordes da magistral composição de Carlos Paredes Os Verdes Anos trazem à memória um certo filme com o mesmo título, realizado em 1963 por um então quase desconhecido cineasta formado na esteira do movimento cineclubista, de seu nome Paulo Rocha. Com produção de António da Cunha Teles, a primeira longa-metragem de Paulo Rocha marca para muitos o início do chamado “cinema novo”. A partir duma curta notícia de jornal (um jovem da província matara uma criada em Lisboa), Paulo Rocha e o escritor Nuno de Bragança construíram um argumento aparentemente simples sobre uma juventude algo inquieta e rebelde, sem saídas numa cidade, Lisboa, com tanto de fascinante como de sufocante. O filme constituiu também o ponto de partida para apresentação de filmes de novos realizadores em festivais internacionais de cinema (Os Verdes Anos obtém mesmo distinções em Locarno, Acapulco e Valladolid).
Em 1966, novamente com produção de António da Cunha Teles, Paulo Rocha realiza Mudar de Vida, um dos raros filmes a abordar de forma realista (embora não muito profunda, já que todos os filmes eram visionados pela Comissão de Censura) a problemática da Guerra Colonial. Rodado no Furadouro, nas proximidades de Ovar, o filme centra-se nas dicotomias terra e mar, tradição e progresso.
Em 1971, sob produção do Centro Português de Cinema (CPC), realiza o documentário Pousada das Chagas, tendo como cenário o Museu de óbidos. Dois anos depois torna-se presidente do CPC, cargo que ocupará até 1975, data em que assume as funções de adido cultural da Embaixada de Portugal no Japão, que desempenhará até 1983. Deixa-se fascinar pelo cinema nipónico e também pela figura e obra de Wenceslau de Moraes, escritor português que em finais do séc. XIX partiu para o Oriente, vindo a morrer no Japão. Moraes é o tema de A Ilha dos Amores (1982) e A Ilha de Moraes (1983), trabalhos que se complementam e dão uma visão bastante profunda da personalidade do escritor.
Parte do que pode definir-se como o seu “ciclo do Japão” é ainda a co-produção luso-francesa O Desejado — As Montanhas da Lua (1987), a adaptação à actualidade portuguesa dum clássico da literatura japonesa do séc. X.
Em 1988 realiza a média-metragem Máscara de Aço Contra Abismo Azul para a Rádio Televisão Portuguesa. Partindo dos títulos de dois quadros de Amadeo de Souza Cardoso (“Máscara de Aço” e “Abismo Azul”), o filme centra-se numa fase da obra do pintor mais voltada para o espectáculo, optando o realizador, através duma montagem de quadros, fotografias e recortes de jornal, por uma abordagem estética próxima da do teatro de revista.
Em 1992 Paulo Rocha presta homenagem a Manoel de Oliveira em Oliveira, o Arquitecto, uma viagem por lugares a que o veterano realizador esteve ligado, acompanhada de testemunhos de familiares e colaboradores. O filme integrou uma série de televisão francesa denominada de “Cinema do Nosso Tempo”.
Seguem-se mais duas obras de temática nipónica: O Senhor Wenceslau Brás em Tokushima (1993), uma peça de teatro filmada, e Imamura, o Livre Pensador (1995).
Em 1998 regista em vídeo um espectáculo teatral do grupo Maizum, Camões — Tanta Guerra, Tanto Engano, regressando à ficção no mesmo ano com uma co-produção luso-franco-brasileira, O Rio do Ouro, uma história algo mística ambientada no Vale do Douro nos anos 50 com que o realizador pretendeu homenagear o cineasta japonês Kenji Mizoguchi.
Data do ano 2000 o que será talvez o mais desconcertante filme da sua carreira, uma farsa política (e musical) localizada numa Lisboa do futuro, protagonizada por vários “travestis”: A Raiz do Coração.
As Sereias e Vanitas, de 2001 e 2004, respectivamente, reafirmaram a vitalidade e a juventude de Paulo Rocha, que continua a filmar com o coração e a razão de quem sabe fazer magia e não teme os desafios da vida.
Paulo Rocha é o realizador homenageado da 5ª edição do Festival de Curtas das Ilhas – mais do que merecida homenagem! -, e os acordes e as imagens de Os Verdes Anos poder-se-ão ouvir e ver de novo, no Teatro Faialense, com o próprio ali ao lado.
» Com apoio do Instituto de Camões”
In http://www.faialfilmesfest.cineclube.org/sitefff09/06_view.php?inome=verdes_anos
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Excerto de Malteses, burgueses e às vezes, de Artur Semedo, 1974.
Excerto do documentário Novo Cinema Cinema Novo, da série História do Cinema Português, 1998, prod. Acetato Filmes.
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Excerto de Sofia e a educação sexual, de Eduardo Geada, 1974.
Narração de Ana Zanatti.
Excerto do documentário Novo Cinema Cinema Novo, da série História do Cinema Português, 1998, prod. Acetato Filmes.
Publicado em Filmografia
Excerto de Cartas na mesa, de Rogério Ceitil, prod. Centro Português de Cinema, 1973.
Narração de Ana Zanatti.
Excerto do documentário Novo Cinema Cinema Novo, da série História do Cinema Português, 1998, prod. Acetato Filmes.
Publicado em Filmografia
Segunda, 2 de Novembro, 22h | Sala Luís de Pina
Ciclo O AMOR NO CINEMA PORTUGUÊS
TRAIÇÃO INVEROSÍMIL
de Augusto Fraga
com Brunilde Júdice, Mário Pereira, Lígia Teles, Cármen Mendes
Portugal, 1971 – 94 min
Jornalista e crítico de cinema, Augusto Fraga estreou-se nas longas metragens de ficção com SANGUE TOUREIRO (1958), a nossa primeira longa a cores, e terminou a carreira em 1970 com este TRAIÇÃO INVEROSÍMIL, bizarra adaptação do romance homónimo de Domingos Monteiro sobre uma troca de identidades.
O MAL AMADO
Terça, 24 de Novembro, 22h | Sala Luís de Pina
Ciclo O AMOR NO CINEMA PORTUGUÊS
de Fernando Matos Silva
com João Mota, Maria do Céu Guerra, Zita Duarte, Fernando Gusmão, Helena Félix
Portugal, 1974 – 99 min
O MAL AMADO ou a inquietação da juventude estudantil em vésperas do 25 de Abril. O desencanto da pequena burguesia e as suas oscilações ideológicas, na figura de um jovem que procura romper com a sua classe mas a ela volta sempre, tendo como cenário o bairro de Campo de Ourique. Proibido pela censura e só estreado depois do 25 de Abril.
Sexta, 20 de Novembro, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Aniversário de Abel Escoto
ABEL ESCOTO E AS FITAS DO SEU TEMPO
de Tony Costa
Portugal, 2008 – 30 min
ABEL ESCOTO – FRAGMENTOS DE VIDA E OBRA
de Miguel Cardoso
Portugal, 2008 – 57 min
Dois documentários que retratam a vida e a obra de um dos grandes directores de fotografia do nosso país, que comemora o seu 90º aniversário. Recorrendo a entrevistas, material de arquivo e imagens de vários filmes, Tony Costa e Miguel Cardoso revelam-nos a arte de um homem que, de câmara em punho, atravessou grande parte da história do cinema português.
Segunda, 9 de Novembro, 21h30 | Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo Abrir os Cofres
AS PINTURAS DO MEU IRMÃO JÚLIO
de Manoel de Oliveira
Portugal, 1965 – 16 min
LISBOA CULTURAL
de Manoel de Oliveira
Portugal, 1983 – 61 min
Em AS PINTURAS DO MEU IRMÃO JÚLIO, José Régio apresenta os quadros do seu irmão Júlio (Saúl Dias). Neste singular filme de Oliveira a pintura é investida de um papel revelador num efeito de transfiguração trazido pelos poemas de Régio e pela música de Carlos Paredes. Integrado na série documental “Capitais Culturais da Europa”, LISBOA CULTURAL foi produzido para a RTP em colaboração com outras estações europeias de televisão e assume a forma de uma reflexão sobre o discurso cultural de Lisboa.
Inicialmente filmados em 16mm, ambos os títulos foram alvo de trabalhos de restauro e de ampliação para 35mm pelo laboratório da Cinemateca no âmbito de um protocolo com a Fundação Groupama Gan Pour le Cinéma. São exibidos pela primeira vez em cópias novas 35mm nesta sessão que igualmente marca o encerramento da 10ª Festa do Cinema Francês.
Sexta, 20 de Novembro, 21h30 | Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo Abrir os Cofres
PORTO DE LISBOA
Portugal, s/d – 4 min / mudo, com intertítulos
INAUGURAÇÃO DA FÁBRICA DE FIBRA-CIMENTO CRUZ QUEBRADA 11 ABRIL 1934
Portugal, 1934 – 9 min / mudo
HOMENS E MÁQUINAS
de João Mendes
Portugal, 1964 – 17 min
CONCELHO DE OEIRAS
de António Escudeiro (não creditado)
Portugal, 1973 -15 min
O programa reúne quatro curtas-metragens documentais reveladoras da história de Oeiras que aqui surge como denominador comum a imagens filmadas entre as décadas de 1930 e 1970 de relevante valor patrimonial, face de uma importante, normalmente menos visível, dimensão da colecção fílmica da Cinemateca. PORTO DE LISBOA dá a ver imagens do estuário do Tejo com paragens em Santo Amaro de Oeiras, Paço de Arcos, Cruz Quebrada, Dafundo e Algés. O segundo filme da sessão regista o acto oficial da inauguração da fábrica de fibro-cimento Lusalite enquanto HOMENS E MÁQUINAS propõe um retrato histórico da Fundição de Oeiras. Uma produção Francisco de Castro para o Ministério da Educação patrocinada pela Câmara Municipal de Oeiras, CONCELHO DE OEIRAS é fiel ao seu título como retrato do município. Os quatro filmes foram preservados pelo laboratório da Cinemateca ao abrigo de um acordo de colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras.
Excepcionalmente:
Segunda, 16 de Novembro, 22h | Sala Luís de Pina
MAL DE ESPANHA
de Leitão de Barros
com José Azambuja, Joaquim Costa, Laura Costa
Portugal, 1918 – 19 min
RITA OU RITO?…
de Reinaldo Ferreira
com Fernanda Alves da Costa, Alberto Miranda
Portugal, 1927 – 41 min
MAL DE ESPANHA é uma comédia que reflecte um traço estruturante da vida afectiva dos portugueses dos anos dez: as espanholas
fatais que tantos casamentos desfaziam. Uma curta-metragem portuguesa de 1927 sobre um travesti? É isso mesmo:
RITA OU RITO?… Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, homem de vários talentos e cineasta ocasional, adapta uma história
que correu na imprensa da época sob o nome “Homem ou mulher?”. O filme, estranhamente, estreou em sala.
Consultar a programação integral do mês de Novembro em http://www.cinemateca.pt/imgs/programacao/doc.pdf
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Excertos do artigo de Ana Isabel Soares sobre Jaime, António Reis, publicada na edição n.º 6 da revista electrónica Doc-Online.
“Se se pode entender, então, que haja essa contaminação poética de tema e de modo de o tratar, já não é tão claro que o tema tratado seja a razão da dificuldade genológica do filme. Isto porque, pretendendo ser um documentário (um dos objectivos com que foi feito era precisamente o de preservar os desenhos e os cadernos de Jaime Fernandes, um óbvio intuito documental), o filme resiste a essa classificação – ou, seja como for, a qualquer outra que tente definir-lhe um género isolado de outros. De facto, entendo que, neste caso, a natureza poética do filme se opõe à sua natureza documental (ainda que tal entendimento não implique uma incompatibilidade de géneros). O filme de António Reis não nega a sua ligação ao objecto documentado. Apesar disso, omite elementos que garantiriam à história uma sequencialidade narrativa mais claramente relacionada com a história daquele homem ou daqueles desenhos; ou, pelo menos, a justificação de certas peripécias – como, por exemplo, a razão para o internamento de Jaime Fernandes, ou saber-se que profissão que teria na sua terra. A ordem pela qual são mostrados os desenhos que o protagonista fez a esferográfica durante o tempo que viveu internado, assim como a legendagem desses desenhos com excertos dos cadernos de Jaime, é instituída pelo filme. É uma sintaxe que o filme inventa – cria, no sentido em que é poética a criação –, que interfere com e transforma os desenhos, na medida em que os integra numa determinada lógica fora daquela em que existem, numa sequência não pré-existente mas inaugurada dentro e a partir do próprio filme. Os desenhos de Jaime Fernandes deixam de ser objectos externos que o filme documente e passam a ser filme gerado no filme.
A ordem pela qual são dados a ver os desenhos – que, mais do que o homem, como se viu, são o centro do filme – faz-se a dois tempos distintos: o primeiro, em que a câmara os mostra como se fosse por dentro, em grande planos que ocultam as margens das páginas e fazem com que toda a sua imagem ocupe o ecrã inteiro; e um segundo momento, já perto do final do filme, no qual os desenhos são vistos na sua escala natural, ao lado uns dos outros, sobre a parede de uma das salas do Hospital, na verdadeira dimensão que contraria o gigantesco que anteriormente pareciam. Esta escolha de montagem reforça a ideia da invenção poética: nos planos iniciais sobre os desenhos, a sua superfície plasma-se sobre a superfície do ecrã, cada desenho funde-se com o filme. A diferença é a que existe entre “fotografias de nitidez [e fotografias] obscuras,” nas palavras de um dos médicos que conheceram Jaime Fernandes – isto se aqui se entender por “nitidez” o reconhecimento possível pela pré-existência e pelo comum do que se mostra no filme e por “obscuridade” o seu contrário, a saber, a existência daquelas imagens apenas na tela e através da tela, sem laço conhecido ou familiar com entidades extra-fílmicas ou que lhe sejam anteriores.
O interesse de Reis pela invenção e a natureza poética do filme são detectáveis noutro aspecto da obra, a saber, a escolha da música e, através dela, a selecção das citações que perpassam o filme. A música, que pode ser vista como instrumento de coesão dos pedaços inconsúteis que constituem um filme, é em Jaime uma figura da maior relevância – e, uma vez mais, repete ou reforça a ideia de separação de uma matéria de documento que se reproduzisse tal e qual na tela. Há no filme três temas musicais a definir outros tantos momentos distintos.
Os excertos de uma composição de Georg Philip Telemann (compositor alemão do período barroco) ouvem-se associados a imagens do exterior
do hospital, da Beira Baixa onde Jaime Fernandes vivera antes de ser internado. A fluidez da sua música é o paralelo sonoro da água que corre num rio perto da povoação onde morou Jaime e sugere a unidade harmoniosa do mundo natural. Os sons compostos por Karlheinz Stockhausen (compositor alemão de música contemporânea) ouvem se quando no ecrã se mostram os interiores do hospital psiquiátrico ou os desenhos de Jaime Fernandes: as descontinuidades sonoras de Stockhausen pontuam o ritmo quebrado a que se vão exibindo as paredes, as folhas desenhadas ou as sombras dos homens no pátio. Entre as duas sonoridades, assim como entre as imagens que ilustram, há oposições evidentes. O terceiro tema a que me refiro é o primeiro a surgir, logo na abertura do filme. Trata-se da versão que Louis Armstrong compôs e cantou de uma canção popular, “St. James Infirmary.” A escolha deste tema de jazz para abrir o filme está claramente associada ao assunto do filme – tal como o Miguel Bombarda, a “infirmary” da canção de Armstrong fala de um lugar de decadência e morte, de vida encerrada e terminada. Mesmo assim, talvez nada estivesse mais distante de um comentário sobre um homem cujo trajecto foi de uma aldeia rural no interior de Portugal durante as primeiras décadas do século XX para um internamento numa instituição psiquiátrica, do que o som do jazz. Associar estes dois motivos é uma decisão autoral poética que diz mais sobre António Reis do que sobre Jaime Fernandes ou mesmo o Hospital Miguel Bombarda.”
Texto na integra em http://www.doc.ubi.pt/06/analise_ana_soares.pdf
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